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mar 30 2016

ARTIGO: E AGORA, SRA. PRESIDENTA?

palacioALFREDO PRADO (Do site Portugal Digital)

O divórcio entre o PMDB, a maior bancada parlamentar, e o governo de Dilma Rousseff, foi consumado no início da tarde de terça-feira, 29, em cinco minutos, durante reunião do seu Diretório Nacional na Câmara dos Deputados.

Sem discursos, sem votação, mas com aplausos de quem acredita no sucesso da decisão. O desfecho de um casamento conturbado, que se prolongou por quase 15 anos, entre idas e vindas, ameaças e recuos.

O populismo lulista e os interesses fisiológicos e corporativistas nem sempre viveram em harmonia, mas a reconciliação foi sempre possível…até que os barões do PMDB intuíram que corriam o risco de serem levados para o abismo, num abraço de morte política, se continuassem a dar suporte ao fracasso de Dilma. E bateram com a porta.

Nesse bater de porta, o país ou, pelo menos, uma boa parte dele vê a possibilidade de encurtar a lenta agonia de um governo incapaz.

 

A NOVA DERROTA DA DILMA

A poucos metros de distância, na Praça dos Três Poderes, no seu amplo gabinete no Palácio do Planalto, Dilma Rousseff sofria mais uma derrota política e sentia aumentar o peso da ameaça de impeachment. E agora, sra. Presidente?

De personalidade persistente, agarrada a um passado de efêmera luta contra a ditadura, que tem procurado transformar em bandeira de caráter – como se milhares de outros brasileiros não tivessem passado por idênticos feitos -, Dilma reluta em abandonar o poder.

Renúncia nunca e impeachment é golpe, afirma, numa atitude de recusa da realidade de isolamento político e social, que não vê ou não quer ver, e que se cristalizam em atitudes e declarações de desafio que não dignificam.

Para onde vai o Brasil é questão para a qual não me parece que alguém possa dar uma resposta no momento.

Duas coisas, no entanto, parecem-me claras: uma é que não há qualquer ameaça de golpe contra o sistema democrático constitucional vigente no país; a outra é que as forças de esquerda serão as primeiras a ser penalizadas pela trama que o populista PT teceu e na qual se enredou.

Convenhamos: quem teceu a trama não foram os milhões de eleitores que escolheram Lula e depois Dilma, nem sequer os muitos milhares de militantes e simpatizantes que ajudaram Lula a chegar ao Planalto. Não foram eles que urdiram o Mensalão e muito menos o Petrolão.

 

CONSEGUIRÁ SOBREVIVER?

Se o governo de Dilma Rousseff conseguirá sobreviver à revolta que alastrou transversalmente a todo o país, abrangendo praticamente todas as classes e camadas sociais, é questão para a qual não há ainda resposta.

Se o apoio popular ao governo é praticamente residual, não deixa de ser verdade que a clientela política construída pelo PT e aliados próximos ao longo de 14 anos de poder, entre cargos comissionados nos vários níveis da governação e destinatários do mais diverso tipo de sinecuras e prebendas, ainda é significativa.

Foram esses que saíram às ruas em defesa de Dilma e Lula. Não se manifestaram para apoiar um projeto de transformações sociais ou defender conquistas sociais e políticas dos trabalhadores ou melhorias das camadas médias.

Saíram em defesa da manutenção no poder dos chefes populistas, em defesa dos privilégios de que foram beneficiários, uns mais, outros menos, durante o consulado de Lula e de Dilma.

 

WALTER PINHEIRO DESISTIU

O abandono do PT por parte do senador Walter Pinheiro, da Bahia, anunciado terça-feira (29), culmina mais de três décadas de militância nas fileiras petistas. Agora foi o “basta”.  Outros se seguirão.

Os líderes do PT, ao mergulharem em acordos espúrios e esquemas indignos, prestaram um mau serviço às lutas por maior redistribuição de renda, por justiça social, por melhores condições de vida.

Comprometeram seriamente as lutas e os ideais comuns aos movimentos de esquerda e, em geral, ao povo brasileiro, que os levou a subirem a rampa do Palácio do Planalto.

Sim, a festa foi bonita, pá! Hoje, o Brasil está coberto por um manto de revolta contra a corrupção e os seus tentáculos. Uma luta que será longa.

 

UMA SUGESTÃO

Conviria que, do outro lado do Atlântico, comunistas e bloquistas, entre outros, fossem cuidadosos nas suas manifestações de apoio e de solidariedade. A busca por informação e a sua análise é trabalhosa, é certo, mas conveniente.

Álvaro Cunhal, o antigo líder comunista português, já lá vão algumas décadas, ainda que insistentemente pressionado por emissários de Pyongyang enviados a Lisboa com convites para que visitasse a Coreia do Norte, nunca se prestou a compactuar com a família do camarada Kim il Sung. Era cuidadoso, estudava e tinha sabedoria política, o que não significa que não cometesse erros.

Se comunistas e bloquistas estudassem mais a realidade brasileira talvez não tecessem tantas loas ao populismo, herança do velho caudilhismo sul-americano, que persiste na estrutura política de vários países. Estudar, estudar sempre! Se acharem que vale a pena, é claro.

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