«

»

maio 30

“CASA ABERTA” É UMA METODOLOGIA CONTRA A CRACOLÂNDIA. MAS SERÁ QUE ALGUÉM LEVA ISSO A SÉRIO?

casa abertaO Brasil está perdendo a guerra contra o crack. Quando age, como aconteceu em São Paulo, é de forma desastrosa.

Mas existe uma metodologia testada, com a qual convivi na década de 90, que poderá ser útil, se alguém ler este texto.

Chama-se Casa Aberta – e é simples.

De 92 a 94, acumulei no Distrito Federal a Secretaria do Trabalho com a área de Serviços Sociais. Trabalhando sempre de porta aberta, recebi uma assistente social mais antiga, Conceição Dutra. Ela, por sinal, tinha graves problemas de saúde – mas não parava de trabalhar.

Conceição me disse que a Fundação de Serviços Sociais tinha um terreno grande na 903 Sul, ocupado pelo mato, no qual podíamos fazer uma experiência de recuperação dos menores abandonados do Plano Piloto, que viviam tomados pelas drogas.

Era a proposta de Casa Aberta. Por sorte, dias antes, pude nomear para o famigerado Caje, onde mais de cem menores infratores eram mantidos prisioneiros, um militar.

Era o coronel Jaime Telles, um ser humano maravilhoso, que durante muito tempo tinha sido comandante da Escola de Educação Física do Exército.

A assistente social Conceição e o coronel Jaime uniram-se para salvar os meninos de rua que viviam no centro de Brasília. Usando o terreno da 903 Sul, os dois buscaram o apoio do Comando Militar do Planalto.

Um dia, me levaram ao local, onde foram instaladas diversas barracas de campanha do Exército. A área estava bem cercada e o mato havia sido podado.

E assim começou a experiência de Casa Aberta em Brasília. À noite, a equipe de técnicos coordenada por Conceição Dutra saía em duas kombis, indo principalmente à Rodoviária de Brasília. Mesmo sendo secretário de Estado, algumas vezes saí com eles, para sentir o drama.

 

ADOLESCENTES A SERVIÇO DO TRÁFICO

No centro, da cidade, adolescentes abandonados passavam a noite drogados, trabalhando para distribuir o material dos traficantes à clientela noturna.

Nossa equipe convidava eles para dormir nas barracas de campanha da Casa Aberta. Com uma condição: na entrada do terreno, sob a supervisão de soldados, os jovens eram submetidos ao famoso baculejo. Isto é: eram revistados e não podiam entrar com nada suspeito. Droga, então, nem falar.

No início, foi muito difícil. Depois de algum tempo, mais de cem seres marginalizados estavam freqüentando a Casa Aberta durante a noite. A secretária de Serviços Sociais, a experiente Maria do Barro, tomou gosto e construiu uma casa de verdade no local, com madeira de eucalipto. E as coisas foram acontecendo

Os garotos (havia poucas garotas) dormiam na Casa Aberta, onde tomavam banho, recebiam cobertores, comiam boa comida, viam TV, jogavam dominó, cantavam e até grupos de tai-chi-chuan apareciam lá para animar a festa.

Um dia, falou-se que os traficantes estavam ameaçando nossas equipes, principalmente na Rodoviária, até dando tiros. Consegui dois agentes policiais “matadores”, que passaram a acompanhar nosso pessoal nas kombis. Problema resolvido e balas de volta!

Os internos da Casa Aberta eram livres. De manhã cedo, depois do café com pão, saíam livremente pela cidade. E, claro, muitos continuavam praticando pequenos crimes.

Um dia, uma comissão de moradores das quadras 700 foi até o governador Roriz reclamar. Levaram registros policiais feitos na delegacia da região. Pequenos roubos, arrombamentos, depredações, etc, sempre envolvendo menores.

O governador me chamou e mandou fechar a Casa Aberta. Pedi a ele que me desse 15 dias para reverter a situação. Nessa noite,cheguei em casa, deitei de lado e chorei. Lembre da deputada Maria Abadia. Esta minha amiga, quando soube da minha nomeação, me disse: “O único período infeliz da minha vida foi quando dirigi a área de Serviços Sociais do GDF”.

Dois dias depois, já fortalecido nas minhas intenções, reuni a garotada e fiz um pacto macabro: “Vamos combinar! Quando vocês saírem daqui, pela manhã, depois do café, devem ir para longe. Andem para depois do Eixão. Ninguém pode ser visto aqui por perto. Caso contrário, fecho a Casa Aberta. Há muitas reclamações da vizinhança contra vocês”.

Quinze dias depois, Roriz me chamou e perguntou: “Que milagre você fez? Os registros policiais sumiram”. Claro que não contei minha malandragem meio mafiosa.

 

REAPROXIMAÇÃO DOS VICIADOS COM AS FAMÍLIAS

Depois de algumas semanas de trabalho, a equipe de Conceição Dutra passou a levar mães, pais e irmãos dos meninos marginais para vê-los na Casa Aberta. Foram os primeiros contatos, bastante difíceis, mas gratificantes. Os adolescentes perdidos apareciam de cabelo cortado, banho tomado e em condições de conversa, embora muito desconfiados.

Em paralelo, o coronel Jaime Telles conseguiu uma coisa maravilhosa. Seis quartéis do Setor Militar Urbano aceitariam receber adolescentes da Casa Aberta durante o dia, desde que houvesse o meu compromisso de conseguir seis ônibus e determinada quantidade de cestas básicas para complementar a alimentação.

Claro que aceitei a oferta. Cerca de 150 meninos de rua, muitos deles oriundos do Caje (onde entravam e saíam sempre, reincidentes), eram levados de ônibus, após o café da manhã, para passar o dia com soldados, rapazes quase da mesma idade. Isso de forma natural, sem ninguém obrigar eles a nada.

A integração foi total. Os jovens militares aproveitaram fardas usadas e fizeram uniformes para a garotada, de calça curta. Os meninos ajudavam a tomar conta dos cavalos, ajudavam na bóia (comida), lavavam canhões, faziam exercícios puxados, praticavam esportes, etc. E tinham tempo para estudar algumas noções que o Exército decidiu passar para eles, fortalecendo alfabetização, etc.

A repercussão foi grande, com reportagens nas principais redes de TV. Tenho certeza que conseguimos salvar dezenas e dezenas de meninos. Muitos deles estavam perto de fazer o Serviço Militar e foram encaminhados para essa atividade. E diversos outros retomaram contato efetivo com suas famílias. Saíram da rua e das drogas. Alguns, talvez, tenham retornado às ruas…

Sinto dizer que, em 1994, muito desiludido, deixei o governo para sempre e, aos poucos, o projeto foi morrendo. Mas teve efeito.

O principal efeito é saber que Casa Aberta é uma metodologia útil, que pode ser feita em parceria com as Forças Armadas, como experiência em algumas cracolândias do Brasil.

O importante é tirar o drogado do inferno por algumas horas, com atitudes motivacionais, conforto, atendimentos diversificados e continuidade. Mas precisa de vontade política. Basta dizer que, quase toda noite, morto de cansado, passava na  Casa Aberta para conferir cada coisa e me emocionar de chorar.

É incrível como a novidade passa de boca a boca. Em pouco tempo, depois das 19 horas, nosso público já vinha chegando, em péssimo estado. Mas aos poucos todos se recuperavam e passavam a noite em paz. Nunca houve briga nem confusão, pois os soldados ficavam de sentinela.

Detalhe: é preciso ter autoridade e regras rígidas. A Casa Aberta, protegida por militares do Exército, tinha hora para entrar (até as 21h) e quem saísse não voltava mais naquela noite. Nada de drogas, o que a sessão de revista bem feita garantia.

Pode ser que algum brasileiro inteligente consiga ler este texto enorme!

Registro que, meses e meses depois que saí do governo para sempre, recebi uma verdadeira declaração de amor da Conceição Dutra, acompanhada deste desenho feito em bico de pena, registrando o que foi a Casa Aberta da 903 Sul.

Deus viu o que a gente fez.  (RENATO RIELLA)

 

CompartilheShare on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>


*