FAUSTO MOREY
Um médico ou psiquiatra pode identificar um surto delirante quando a crença de um indivíduo parece ser improvável, bizarra ou mantida com convicção excessiva.
Por outro lado, crenças verdadeiras podem ser erroneamente classificadas como delirantes – a esposa do secretário de Justiça dos EUA, Sra. Martha Mitchell, afirmou que ocorriam atividades ilegais na Casa Branca, mas estas foram consideradas sinal de doença mental – sua sanidade foi comprovada somente após o escândalo de Watergate se tornar público.
No delírio, os mecanismos associativos se desviam da lógica/realidade, conduzindo o individuo a raciocínios anômalos e às alucinações (percepções e ideias delirantes), ou seja, conteúdos irreais que se impõem como uma convicção inabalável.
Em seu tratado de psiquiatria, Dr. Emil Kraepelin define:
“A ideia delirante é uma representação morbidamente falseada, cuja demonstração não se pode comprovar. Esta ideia, ou conjunto de ideias, não é acessível ao raciocínio e argumentação lógica nem é modificada pelo confronto com a realidade”.
Dr. Thomas Kuhn demonstrou em The Structure of Scientific Revolutions que cientistas e outros estudiosos (por nossa conta e risco incluímos os economistas) podem manter crenças fixas em teorias científicas, apesar de consideráveis evidências em contrário quanto a sua validade… Mas, qual seria o motivo para tratarmos do delírio?
Parece-me que certas afirmações que circulam nos meios de comunicação sobre nossa economia são delirantes, então, o Contraponto resolveu apresentar seus próprios delírios…
Delírio ou farsa?
Nos últimos 11 anos, a produtividade média anual no setor agropecuário subiu 3,9% a.a., a do setor de serviços teve uma elevação de apenas 0,7% a.a., enquanto a indústria amargou uma queda de 0,9% a.a. O resultado foi uma elevação da produtividade geral de apenas 1% a.a.
No mesmo período, a produtividade geral no EUA subiu mais de 3,7% ao ano.
Houve uma distribuição de renda entre assalariados – a base da pirâmide recebeu reajustes superiores àqueles do topo, mas a maioria recebeu aumentos reais de salários acima da produtividade. Com a apreciação do real frente ao dólar, os salários em dólares subiram significativamente, fato que pesou na indústria. A renda também cresceu em função do rápido aumento do nível de crédito na economia, que saltou de 28% do PIB em 2006, para mais de 50% hoje.
Estas modificações aceleradas no perfil e na distribuição de renda não foram seguidas por uma ampliação da oferta de bens e de infraestrutura. Há uma inflação de demanda – descompasso da oferta, e de custos de produção.
As importações fizeram os preços dos bens industriais ficarem abaixo da inflação, enquanto os serviços subiram o dobro. A inflação está girando acima do teto da meta e com uma taxa de dispersão superior a 70%. Além da disputa distributiva, há um sério desajuste macroeconômico.
O nível de investimentos continua abaixo dos 18% do PIB e nem mesmo a injeção de US$ 200 Bi de recursos do Tesouro no BNDES, BB e CEF que tem ocorrido desde 2008, elevou o nível dos investimentos. Os juros bancários continuam elevados, apesar da redução da SELIC.
As isenções fiscais para conter a inflação, a redução do crescimento econômico e os gastos de custeio levaram o governo a ter déficit primário em fevereiro. A balança comercial acumula US$ 6 bi de déficit até fevereiro, agravando a situação das transações correntes, que saltaram de US$ 54 bi em dezembro passado para US$ 63,4 Bi.
As reservas cambiais, que estavam em US$ 378 Bi em dezembro passado, caíram para US$ 376,4 bi em 27/03, uma estagnação após anos de acumulação. A dívida pública líquida subiu mais de 0,5% do PIB em apenas 2 meses.
O mercado imobiliário enfrenta preços altos e queda no ritmo de vendas e a indústria automobilística está com uma nova elevação dos estoques pela frente…
Estamos diante de um ponto de inflexão da política econômica, ou isto tudo seria apenas um delírio ou uma farsa?!…
(COMENTÁRIO DA PÁGINA ELETRÔNICA CONTRAPONTO, DO CONSULTOR FAUSTO MOREY)