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out 18 2013

EUA, uma nação ideologicamente dividida

 PAULO TIMM

Depois de várias semanas de apreensão, o mundo respirou aliviado nesta quarta-feira com a notícia do Acordo na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, com vistas às liberação de novos limites ao endividamento do país.

Tudo lá volta a funcionar: Serviços Públicos, negociação de Títulos, até a espionagem e a guerra.  Mas só até fevereiro. Então, tudo será rediscutido de novo.

Porém, com a derrota acachapante dos republicanos, que tentaram com sua intransigência impedir a aplicação do Programa “Obama-Care”, uma espécie de SUS para os mais pobres, talvez haja menos tensão. Esperemos para ver.

A verdade é que a grande potência do Norte está em apuros e ideologicamente muito dividida.

Os Republicanos são cada vez mais polarizados por um pequeno, mas ativo grupo, denominado Tea Party, de extrema direita, a favor de um Estado Mínimo, sem concessões sociais, cada vez mais financiado por grandes corporações empresariais.

Os Democratas, Obama à frente, se inclinam à esquerda, como fórmula de enfrentar tanto a crise econômica, que exigiria gastos compensatórios, quanto à crise social.  Curiosamente, a opinião pública, embora levemente favorável aos democratas, está apreensiva e acusa grave crise de representatividade, tal como aqui no Brasil.

Enquanto isso, os déficits americanos se elevam assustadoramente, sua economia rasteja, demonstrando pouco fôlego. A velha sociedade de classe média, que vendia ao mundo inteiro o american dream, se esfacela a olhos vistos. Hora de se perguntar: o que passa com a América?

Tudo começou na década de 70 – e tenderá a se acentuar-  com o aumento da concorrência internacional derivada de globalização. O mundo dos negócios, sejam estes industriais ou financeiros, é cada vez mais concentrado e articulado em suas decisões, deslocando  estrategicamente suas plantas para os lugares onde o custo é mais barato, vale dizer, o Terceiro Mundo –  e aí, os países asiáticos.

Neles, seja o Japão, Coréia, China, Índia e mesmo o Brasil, o capitalismo se aclimata com inusitado vigor, num quadro institucional que lhe era estranho na origem. Mas funciona e inunda o mundo com novos e mais baratos produtos, colocando a velha Europa e os Estados Unidos na berlinda.

 

PODER EM MÃOS DE

1.318 TRANSNACIONAIS

A Escola Politécnica Federal de Zurique sacudiu o debate sobre a concentração do poder em nível mundial. A base de dados do estudo chegava até 2007, ou seja, até a fronteira da grande crise que sobreveio com a queda do Lehman Brothers, e quantificava pela primeira vez a ideia generalizada de que um punhado de empresas dominava a economia mundial.

 A investigação de Stefania Vitali, James B, Glattfeldes e Stefano Battiston, “The network of global corporate control” (A rede do controle corporativo global) não se baseava em teorias econômicas ou políticas, mas sim no desenho de sistemas.

Demonstrava que 1.318 empresas transnacionais possuíam direta ou indiretamente ações de sociedades que representavam 60% das receitas mundiais. Mostrava ainda que o núcleo duro desse grupo era formado por 147 empresas, que concentravam 40% das receitas corporativas mundiais.

 O mundo, enfim, mudou sua configuração  geopolítica e dificilmente voltará ao Pós-Guerra e aos anos de Pax Americana. Entramos definitivamente numa nova Era de “desamericanização do mundo”,  na qual China, Índia e Brasil, núcleo duro dos BRICs , terão um protagonismo inédito.

Esses países concentrarão a maior parte da economia e do mercado mundial e reverterão o eixo da economia do Norte para o Sul do hemisfério, tal como prediz o 2013 United Nations Human Development Report, que ressalta:

“O crescimento do Sul não tem precedentes em velocidade e escala. Doravante, pois, Shangai, São Paulo e Nova Delhi serão os centros autoconfiantes do mundo e, por isso mesmo, procuram entender-se e criar mecanismos para o desafio que se aproxima”.

A criação de um Banco de Desenvolvimento  e as tentativas internas ao bloco de criar uma nova moeda de referência são marcos deste novo tempo.  Não teremos, por certo, um retorno à Guerra Fria, de confronto com o Ocidente, mas assistiremos, inevitavelmente, às tensões desta reacomodação estratégica do Poder Mundial.

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