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mar 12 2014

Impacto das tecnologias sobre o emprego

JOSÉ PASTORE

Focalizei nos últimos artigos os enormes avanços que vêm sendo realizados no campo das tecnologias dos países mais ricos. Os robôs estão presentes em toda parte, inclusive no ambiente doméstico. Os pré-moldados e os novos materiais dominam a construção civil. Os alimentos começam a ser produzidos em fazendas verticais. Os drones se preparam para entregar mercadorias, sem tripulantes.

Os computadores que pensam e corrigem erros serão os condutores dos veículos. As máquinas de tradução e interpretação simultânea já estão no mercado. E assim por diante.

Se, de um lado, o novo mundo promete conforto e eficiência, de outro, os seres humanos se preocupam com seus empregos. Isso já ocorreu no passado.

A máquina a vapor incorporada aos teares ingleses ameaçou o trabalho dos tecelões. O motor elétrico prometeu acabar com os artesãos. O telefone desafiou o reinado do telégrafo. O cinema acabaria com o teatro. E a televisão daria um fim ao cinema.

Nada disso aconteceu porque as tecnologias aumentaram a eficiência dos negócios, geraram mais lucros, promoveram investimentos, criaram empregos e melhoraram a renda dos trabalhadores. Será que assim será o novo mundo? É uma incógnita.

O fato é que as empresas modernas não têm escolha entre adotar ou não adotar as técnicas modernas, porque a economia se globalizou e ficou altamente competitiva. Vence quem tem o melhor produto, a preços convidativos e com aparência agradável. Quanto mais as empresas adotam as novas tecnologias, mais baratas elas ficam, o que permite o acesso de maior número de competidores.

Os trabalhadores estão preparados para esse mundo? Estudos recentes indicam que quase a metade dos empregos dos Estados Unidos tem alta probabilidade de, em menos de dez anos, ser substituída por robôs, computadores, drones e outra inovações (Carl B. Frey e Michael A. Osborne, The future of employment: how susceptible are jobs to computerisation, University of Oxford, 2013).

Os autores citados examinaram mais de 700 profissões que, à luz das novas tecnologias, foram classificadas como de alto, médio e baixo risco de sobreviverem. As mais críticas são as que envolvem tarefas rotineiras e repetitivas que serão realizadas por meios mecânicos e eletrônicos, incluindo as ocupações das linhas de produção industrial, da logística, do transporte, da construção, os vendedores, balconistas, caixas e todas as profissões que podem ser executadas por robôs e computadores.

No médio risco estão os profissionais que combinam destreza manual com inteligência na tomada de decisões, como os instaladores, reparadores, encarregados de manutenção, etc. No nível baixo estão as profissões que requerem alto nível de inteligência social e emocional, com capacidade para interpretar sentimentos e resolver problemas, incluindo aqui os artistas, negociadores, cuidadores da saúde e dos direitos, executivos de projetos e administradores de contratos.

O que será dos ocupantes das profissões de alto risco? Se eles se reciclarem, trabalharão nas novas atividades. Caso contrário, perderão o trabalho e reduzirão a renda, transformando-se em fardo pesado para o Estado, que, de um jeito ou de outro, terá de acudi-los.

Mais uma vez, a chave da sobrevivência é educação de boa qualidade. Ter uma capacitação profissional atualizada será indispensável. Mais estratégico, porém, será dominar os conhecimentos básicos da linguagem, da matemática e das ciências. É com base neles que se vai fazer a necessária atualização e reciclagem.

Aqui mora o grande desafio para o Brasil. Ao longo dos próximos dez anos, o nosso ensino terá de dar um grande salto de qualidade. Para isso, é preciso começar já.

*José Pastore é professor da FEA-USP, é presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio-SP e membro da Academia Paulista de Letras.

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