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dez 28

OLIVEIRA BASTOS: NADA É TÃO RUIM QUANTO PARECE SER

RENATO RIELLA

Na passagem do ano, refletindo sobre velhice, lembrei de como a gente pode superar ódios cristalizados, depois que amadurece.

Meu principal exemplo se chama Oliveira Bastos, um dos jornalistas mais brilhantes do Brasil em todos os tempos. Era um indivíduo explosivo, com cenas horripilantes de injustiça.

Ele me despertou raros momentos de fúria. Mas o tempo tudo cura. De repente, Oliveira morreu em Brasília, debaixo de grande amizade minha. Com o tempo, nós nos superamos. Fomos melhores do que parecíamos.

Na década de 70, Oliveira me contratou, em 30 segundos, em pé,  para fazer a primeira página do Correio Braziliense. Levei dois ou três anos fazendo só isso – muuuuuito bem!

Perguntei a ele: “Qual a minha mesa?” Respondeu: “Mesa? Sente em qualquer lugar, porra, até no chão, se quiser”.

Mirei uma mesa bem humilde, na entrada da redação. Fiquei por ali, meses e meses, fazendo a primeira página junto com o brilhante diagramador Lopes. Diziam que o Correio era um péssimo jornal pendurado na primeira página.

 

FUI TRABALHAR “GRÁVIDO”

Quando meu filho Jan nasceu, em 1977, avisei a Oliveira que iria faltar. Faltei só um dia. Cheguei na noite do segundo dia, corrido do hospital, para fazer a primeira página. O cara gritou do meio da redação: “O grávido veio trabalhar”, e muitos deram uma risadinha nervosa de tensão, diante da grosseria. Filadeumaputa!

Nosso relacionamento era uma guerra diária. Duas ou três vezes fui na sala dele tirar dúvida sobre tema complicado e ele berrava: “Porra, não tem competência nem para fazer uma primeira página”. Assim me virei, em plena ditadura, sabendo que se errasse não teria cobertura de ninguém.

 

A HISTÓRIA DO EUCLIDES

Lembro de Euclides, um ótimo redator que importei da Bahia. Trabalhou alguns meses no Correio (cadê você, Euclides?)

Oliveira implicou com o rapaz. Expulsou ele no meio da redação, aos berros. “Passe no caixa e pegue as suas contas”. Euclides esperou dois ou três dias e assinou a demissão, Foi-se!

Duas semanas depois, Oliveira passa por Euclides numa mesa do Beirute, bota as mãos na cadeira, e esbraveja: ”Porra, um chefe de redação não pode reclamar mais com ninguém, que o cara sai todo enfezadinho… Quero você de volta amanhã, viu!” Obediente, e precisando do emprego, Euclides desmanchou a demissão e voltou por mais algum tempo.

Oliveira era especial, genial, amigo de Glauber Rocha, do Sarney e de muita gente importante. Depois de dois anos, cansei e saí de repente do Correio. Logo depois ele caiu. Perdeu o emprego.

Levei quase 30 anos sem vê-lo, mas tinha trauma dos seus berros de timbre fino. Antes disso, houve um célebre episódio em que Sérgio Naya e seus irmãos deram uma surra em Oliveira no Aeroporto de Brasília. Muitas emoções, sempre!

 

E OLIVEIRA VOLTOU A BRASÍLIA

No início deste século, de repente, Oliveira voltou a Brasília, fazendo coluna política numa revista local. E lembrou de mim, que havia casado há pouco com Márcia Lima.

O indivíduo não me esqueceu. Comentando uma análise minha sobre política local, disse mais ou menos assim: “Esse cara só pensa em loura agora. Por isso escreve uma bobagem dessas”.

Pensei em pegar o revolver que não tenho e ir atrás dele, para tirar os atrasados. Mas estava bem de vida, dirigindo o Jornal da Comunidade, e me esqueci.

Dias depois, encontrei Oliveira num local público. Ele olhou pra mim, com a cara da maior felicidade, e falou assim: “Como é que está, rapaz? Há um tempão que penso em você. Precisamos conversar”.

E assim, passamos a nos ver, Soube que Oliveira passava por um tratamento de câncer de próstata. De repente, ficamos grandes amigos.

Eu tinha lançado um livro em 2005, uma paródia do Lula. Mostrei pra ele, que gostou muito. Pretensioso, disse: “Se tivesse me mostrado antes, a gente cortava o último capítulo”. Olhando o livro hoje, o filadaputa tinha razão.

Lembrei do dia em que dei uma corrida nele na redação. Oliveira estava lendo o mural do Correio, instalado na entrada da redação, em frente à minha ridícula mesinha (melhor do que o chão!). O dia estava tenso.

Apareceu um contínuo com uma correspondência. Sem saber quem  ele era, perguntou: “Quem é dona Riella?” Em altos brados, Oliveira Bastos respondeu: “Dona Riella é esta coisa aí”, apontando pra mim.

Gritei: “Filho de uma puta”, e corri atrás dele. Deu uma corridinha e bateu a porta da sala de diretor, à qual não tive coragem de invadir. No outro dia estava tudo bem. O mesmo caos de sempre.

Anos depois de voltar a Brasília, Oliveira piorou do câncer. Foi internado, etc. Não tive coragem de visitá-lo. Acompanhei seu estado via Fernando Lemos, uma das poucas pessoas que Oliveira amava de verdade, mais do que filho.

E assim morreu o meu amigo Oliveira Bastos, do qual tenho saudades nesta passagem de ano. Conto isso como lição aos mais novos. Nada é tão ruim quanto parece ser.

 

O CARA JOGOU UMA MÁQUINA DE ESCREVER NO CHEFE

Desculpem! Reabro o assunto para contar uma ótima. João Bolão foi um dos maiores redatores (copydesk) de jornal no Brasil. Veio para o Correio, importado por Fernando Lemos e Oliveira Bastos (infelizmente, Bolão bebia muito e morreu cedo).

Num plantão de domingo, Oliveira encheu tanto o saco do Bolão, que ele, muito forte, num ataque de fúria, jogou uma pesadíssima máquina de escrever Remington no chefe. Se acertasse, eu não teria essas histórias para contar sobre Oliveira.

No fim, ficou tudo bem – na medida do possível, é claro.

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