«

»

jul 30 2020

Pesquisa: 70% dos profissionais da saúde se sentem despreparados para pandemia

O conhecimento sobre a covid-19 ainda é tão pouco que os médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde estão com medo e se sentindo despreparados. Ao mesmo tempo, por conta da pandemia ainda descontrolada no Brasil, eles relatam sofrerem pressão, estarem atuando em jornadas exaustivas e com a saúde mental abalada.

Estas são as principais conclusões de uma pesquisa realizada entre 15 de junho e 1º de julho com profissionais de saúde que atuam em todas as regiões do país. Ao todo, 2.138 responderam ao questionário, aplicado pelo Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“Os resultados são muito ruins. Mostram condições precárias de trabalho para esse profissionais, com falta de treinamento, equipamento e uma sensação muito grande de desamparo”, afirma à DW Brasil a cientista política Gabriela Lotta, coordenadora da pesquisa.

O levantamento mostrou que 78,2% dos profissionais de saúde enfrentam algum problema de saúde mental e 70% se sentem despreparados. “É uma prevalência muito grande”, ressalta Lotta. “Isso claramente traz consequências para os pacientes. [Os médicos e enfermeiros] sentem medo, e isso se reflete no atendimento.” De acordo com o levantamento, 79% dos médicos e 83% dos enfermeiros relatam ter medo da covid-19.

Coautora da pesquisa, a cientista política Michelle Fernandez afirma que os dados mostram um cenário de fragilidade da classe médica brasileira. “Diante de uma doença nova, nenhum profissional de saúde estava preparado para viver tal experiência no trabalho”, resume ela, à DW Brasil.

A pesquisa também revela que metade dos profissionais de saúde alega não receber equipamentos de proteção individual (EPI) de forma adequada. E 80% deles conhecem pelo menos um colega que teve diagnóstico positivo para a doença.

A reportagem da DW Brasil ouviu 12 médicos e enfermeiros de vários estados brasileiros sobre os pontos abordados na pesquisa. Todos eles relataram diversos casos de colegas infectados — no caso da técnica em enfermagem Rakeline Carvalho Lima, que atua em Feira de Santana e em Alagoinhas, na Bahia, ela própria teve covid-19. Em comum, eles afirmam que, além da tensão de ver alguém próximo adoecer, o afastamento do colega ainda se reflete numa maior sobrecarga de trabalho.

A médica Paskale Salazar Vargas, que atua na Santa Casa de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, comenta o sofrimento que foi trabalhar na última quarta-feira, com a notícia da morte de um colega, técnico em enfermagem no mesmo hospital. “Isso abala. Sempre que a morte chega mais perto, abala mesmo”, diz ela. “[E a doença tem feito com que] os colegas sejam afastados, e está difícil fechar as escalas. A gente acaba dobrando o tempo de trabalho.”

Marcos Pedrosa, médico da rede pública em Brasília, também diz que chegou a faltar aventais, protetores faciais e máscaras em sua unidade. “Isso gerou muita insegurança nos profissionais”, recorda ele, enfatizando que o problema já foi resolvido.

Médica de um hospital privado no Rio de Janeiro, Fernanda Barroso Mendonça Costa ressalta que a saúde mental dos profissionais de saúde é prejudicada justamente pela dificuldade em compreender a doença. “É uma roleta-russa: a gente vê doentes jovens sem comorbidades morrendo e pessoas teoricamente de grupos de risco saírem bem”, compara ela.

A médica Fernanda Barroso Mendonça Costa resume com uma frase a sensação. “Não temos perspectivas de quando isso vai acabar, e isso é o mais angustiante”, diz.

Com informações de DW

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*