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jun 04

POR FALAR EM DIGNIDADE, ME LEMBREI DAS FANTÁSTICAS “BAIANAS DO ACARAJÉ” DA BAHIA

Faço há dois anos curso semanal de Teologia/Filosofia na Comunhão Espírita de Brasília. Nesta semana, abordamos a “dignidade humana”, oferecida por Deus, mas nem sempre valorizada por nós. E como precisamos de igualdade, neste Brasil tão ferido!

Aprendi na aula que pode existir dignidade em qualquer faixa etária, qualquer raça, qualquer situação econômica, se o ser humano tiver princípios e capacidade de se organizar. Independe de riqueza ou de nível cultural.

E, em plena aula, me lembrei das “baianas de acarajé” da minha infância e da minha adolescência, que sempre foram motivo de grande admiração para este baiano nascido repórter. Como elas se impunham, na sua pobreza afro! Às vezes, até eram bastante brabas, corajosas na autodefesa.

Em diversos bairros e diversos momentos, vi a baiana de acarajé chegar de ônibus no final da tarde, carregando seu tabuleiro na cabeça, para instalar-se numa esquina comercial. Era uma vendedora ambulante que o “rapa” não tinha coragem de atacar.

No início, ainda menino, dei risada e achei estranho. Depois, foram me explicando as razões de cada ato. E passei a valorizar este tipo que fez a imagem de Salvador e que brilha nas alas valorizadas das escolas-de-samba do Rio.

Primeiro, minha admiração pela extrema elegância. Geralmente eram mulheres de meia idade, negras herdeiras de escravos, cheias de corpo – e bonitas. Vinham com vestidos brancos rodados de renda, limpos, quase luminosos.

E usavam torso igual no cabelo – afro total. O riso aberto, com dentes muitos brancos, era uma marca.

Antes da instalação, cada uma varria meticulosamente a calçada. Depois, com moringa de barro, a nossa personagem lavava o chão ao redor. Higiene espiritual oriunda do Candomblé.

Finalmente, a baiana sentava-se, abria o tabuleiro e despejava ao lado um acarajé, como se servisse um cliente invisível. Era o “acarajé do santo”, oferecido como preceito do candomblé para proteger aquele ambiente. Um ato também espiritual. Santo come?

Ninguém contestava nem ridiculariza nunca seu ritual. E a negra da minha terra podia, então, começar a vender diversos produtos baianos. Neste momento, pequena fila já se formava, impaciente com tantos preparativos. Mas ela ia atendendo naquele ritmo sábio de Dorival Caymmi: sem pressa.

Na véspera, ainda em casa, as mulheres trabalhavam a massa de acarajé (feijão fradinho), deixando-a fermentar durante quase 24 horas. Pela manhã, outros preparativos para que, às 17 horas, a comercialização pudesse ser feita.

E, como vocês sabem, o acarajé é cozido na hora do consumo, em frigideiras com dendê. Ô-la-lá!

Foi um costume maravilhoso que se desenvolveu ao longo de décadas na Bahia, produzindo comidas famosas. E fazendo a honra da terra onde o Senhor do Bonfim anda de braços dados com os orixás.

Entendi com o tempo que as autênticas baianas tinham um status diferente na cultura e na sociedade de Salvador.

Formavam uma espécie de casta negra, muito respeitada. Acima da sociedade comum.

Vi donas de casa brancas, até meio riquinhas, tratando essas mulheres simples com extrema reverência – e até ouvindo seus conselhos sobre a vida.

No fim do dia, com tabuleiro vazio, a baiana do acarajé voltava para a sua casa em bairro pobre – mas de grande dignidade. Tinha vendido razoável quantidade de acarajés, abarás, cocadas diversas e amor universal, sem fronteiras.

Hoje, muitos doutores baianos devem ser filhos de mulheres que, em décadas atrás, construíram o futuro atrás dos tabuleiros. Só não sei dizer se as atuais baianas mantêm a mesma aura de grandeza espiritual – mas acredito que algumas, sim!

Por isso, Gil canta que a Bahia nos deu régua e compasso. Tivemos com quem aprender sobre grandeza humana, meu irmão! (RENATO RIELLA)

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