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nov 27 2020

Produtor musical negro é espancado por policiais franceses, vídeo viraliza e abre crise no governo

Quatro policiais franceses foram suspensos de suas funções ontem (26), depois da divulgação de um vídeo nas redes sociais que mostra pelo menos três agentes espancando um produtor musical negro, no sábado (21), quando ele chegava em um estúdio de gravação no 17° distrito de Paris.

As imagens viralizaram nas redes sociais e provocam a indignação de jogadores de futebol, ativistas e políticos de oposição. Todos denunciam o racismo e abusos da polícia francesa.

Até o início da noite, o vídeo mostrando a violenta agressão ao produtor musical negro Michel Zecler tinha sido visto por sete milhões de pessoas. As imagens, publicadas pela mídia independente Loopsider, mostram o homem sendo surrado pelos policiais. Três agentes alegaram que intervieram porque o produtor estava na rua sem máscara.

Eles disseram que “foram arrastados” pela vítima para dentro do prédio. Um quarto policial, que chegou de reforço para “ajudar os colegas”, é suspeito de ter jogado uma bomba de gás lacrimogêneo no estúdio de música.

Michel Zecler, que prestou queixa acompanhado por sua advogada na sede da Inspeção-Geral da Polícia Nacional em Paris (IGPN), órgão equivalente à corregedoria da polícia no Brasil, disse que os policiais o chamaram várias vezes de “crioulo sujo”. Ao final de seu depoimento, ele destacou que sua única expectativa é que “o trabalho de corregedoria da polícia (IGPN) seja feito”. O ministro do Interior, Gérald Darmanin, declarou que os policiais envolvidos serão demitidos.

O caso vem à tona em uma semana em que a política de segurança pública do presidente Emmanuel Macron é criticada pela oposição de esquerda e enfrenta uma onda de protestos nas ruas.

Na segunda-feira (23), uma violenta operação policial de retirada de migrantes afegãos da praça da República, em Paris, chocou até o ministro do Interior. No dia seguinte, a Assembleia Nacional aprovou uma lei controversa que proíbe e criminaliza a filmagem de policiais durante suas intervenções. 

Antes dessa votação, durante dez dias sindicatos de jornalistas e defensores dos direitos civis fizeram uma série de manifestações para denunciar o texto, considerado uma censura à liberdade de informar. Elogiado pelos sindicatos da polícia, apoiado pela direita e pela extrema direita, esse artigo da nova Lei de Segurança Global é apontado como uma deriva autoritária de Macron.

O presidente não se manifestou. O primeiro-ministro, Jean Castex, disse que o polêmico artigo será modificado e enviado para avaliação do Conselho Constitucional.

Em imagens de câmeras do circuito interno do estúdio, também vistas pela agência AFP, os três policiais são vistos entrando no local, agarrando o homem e dando socos, chutando ou batendo nele. Em seu relatório, os agentes escreveram que Zecler é que os havia agredido inicialmente.

De acordo com essas mesmas imagens, o produtor resiste aos socos para evitar ser levado até a viatura, depois tenta proteger o rosto e o corpo. A cena dura cinco minutos e não parece que a vítima tenha batido nos policiais, diz a AFP. Num segundo momento, as pessoas que estavam no porão do estúdio conseguem chegar à entrada, fazendo com que os policiais recuem para a rua, batendo a porta. Os policiais tentam, então, forçar a porta e um deles lança uma bomba de gás lacrimogêneo no local.

Machucado e sangrando, Zecler foi levado assim mesmo para uma delegacia, onde foi aberto um inquérito contra ele por “violência contra pessoa que detém autoridade pública” e “rebelião”. No entanto, a procuradoria de Paris encerrou esta investigação e abriu um novo inquérito na terça-feira, desta vez por “violência cometida por detentores de autoridade pública” e “falsificação de BO”.

“Se não tivéssemos os vídeos, meu cliente poderia estar atualmente na prisão”, disse a advogada do produtor, Hafida El Ali.

Com informações de rfi

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