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mar 21 2014

QUANDO FALTA LUZ, TENHO ÓTIMAS LEMBRANÇAS DA BAHIA

RENATO RIELLA

Faltou luz na minha casa até agora. Em vez de xingar o meu amigo Rubem Fonseca, presidente da CEB, fiquei feliz, pois tive chance de lembrar de outro amigo, o jornalista Neomar Cidade, de Salvador, que não vejo há mais de 20 anos.

Trabalhamos juntos no Diário de Notícias da Bahia na década de 60 (comecei lá com 17 anos). Neomar foi o maior datilógrafo que já conheci, além de exímio pianista. Datilografia era uma técnica que a gente aprendia em escolas especializadas, para usar onze dedos nas máquinas de escrever manuais. Eram dez dedos em teclados de letras e um que percorria as teclas especiais: cifrão, percentual, etc.

Neomar escrevia as suas reportagens sem olhar para as teclas, assoviando. Enquanto datilografava com absurda rapidez, conversava com a gente olhando para os lados. Parecia um mágico.

Às vezes faltava luz em Salvador (menos do que em Brasília, agora). No escuro, a redação parava. Nesses dias, os mais velhos jornalistas faziam uma rodinha e ficavam contando piadas de sacanagem ou histórias de terror que assustavam as repórteres mais jovens.

De repente, em plena escuridão, soava o bater ritmado de uma máquina de escrever veloz, parecendo a ação de um fantasma. Era Neomar Cidade, escrevendo as suas matérias sem luz nenhuma. Se algum dia ele ficar cego ( Deus ajude que não), continuará sabendo de cor onde está cada letra do teclado.

O grupinho das histórias de terror ficava puto-da-vida e começava a jogar coisas em Neomar. Eram bolinhas duras de papel, canetas, etc, até que ele parava de nos humilhar.

Nunca chequei se, realmente, o cara conseguia escrever no escuro ou se apenas batia em teclas diversas, de molequeira. Mas hoje, quando falta luz, Neomar me faz alegre e risonho. Lembro de épocas quase inocentes da minha vida profissional na Bahia.

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