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ago 04 2014

GAZA: VEMOS, OUVIMOS E LEMOS, NÃO PODEMOS IGNORAR

CARLOS FINO

No momento em que escrevo, não sei mais qual é a situação em Gaza. Desde finais da semana passada deixei de acompanhar regularmente as notícias, chocado com as insuportáveis imagens do horror – a morte diária de dezenas de pessoas e a destruição sistemática das infraestruturas, tornando ainda mais intolerável uma situação já de si extremamente difícil devido à simples densidade populacional – uma das maiores do mundo – agravada por um cerco militar humilhante.

Quando deixei de acompanhar o noticiário, o balanço do sacrifício humano ultrapassava já os 1.500 palestinos mortos – 300 dos quais crianças – muitos milhares de pessoas feridas, traumatizadas e sem lar, centenas de milhar de outras em fuga, sem proteção segura, e pelo menos meia centena de soldados israelitas abatidos.

Mas, se podemos tentar evitar as repetidas imagens do horror, um dever de consciência impede-nos de permanecer indiferentes.

Tomar posição não é fácil, dado o clima de prática intolerância que o radicalismo de um lado e do outro contribuiu para criar, acusando quem ousa pronunciar-se ou de ser antissemita e conivente com o terrorismo palestino ou de fazer o jogo da opressão israelita.

Para que fique claro, devo esclarecer que tenho suficientes nomes de origem judaica na família, que um dos primeiros livros que desde bastante jovem meu pai me estimulou a ler foi o Diário de Anne Frank e que cedo aprendi portanto o que foi o horror nazi.

Por outro lado, originário como sou do Sul de Portugal, habituei-me também a valorizar a nossa herança árabe, tão presente, ainda que nem sempre evidente, nalguns dos hábitos e na cultura da região.

HÁ UM DAVID E UM GOLIAS

Valorizar e respeitar os dois lados do confronto não significa, entretanto, que se possa colocar um sinal de absoluta equivalência em tudo, como tendem a fazer os media ocidentais, num jogo de equilíbrio aparente que na realidade favorece o mais forte.

Porque a verdade é que a situação no terreno está longe de ser equilibrada. Há um David e há um Golias.

De um lado, temos um Estado poderoso, economicamente próspero, que conta com o apoio praticamente incondicional da maior potência do mundo, militarmente bem equipado e treinado, único na região que possui a arma atômica, com armamento de defesa sofisticado capaz de detectar e destruir ataques de mísseis, separado por altos muros da população palestina eventualmente hostil, o que faz dele uma fortaleza praticamente inexpugnável.

Do outro, uma nação sem Estado, com fracas infraestruturas, que só sobrevive graças à ajuda humanitária internacional, cuja população está distribuída por territórios distintos, entre os quais não pode circular livremente e cujos movimentos estão sujeitos, tanto num lado como no outro, a controles permanentes e humilhantes, sob a mira das espingardas adversárias.

Sem que esta realidade esteja presente, qualquer análise do conflito estará incompleta.
Sim, é verdade que o Hamas recorre ao terrorismo e tem por vezes usado população civil, incluindo crianças, como escudo, chegando ao cúmulo de colocar armamento em escolas. Tudo crimes que devem ser vigorosamente condenados sem subterfúgios e contra os quais Israel tem todo o direito, tem mesmo o dever de se defender.

Mas temos também de reconhecer que a situação desesperada em que vivem os palestinos é o terreno fértil do extremismo. Só ela explica, aliás, o apoio de que o Hamas desfruta.

MULTIPLICAM-SE OS COLONATOS JUDAICOS

Enquanto Gaza vive militarmente cercada, na Cisjordânia, contra todas as resoluções da ONU, multiplicam-se os colonatos judaicos.

Nestas condições, ao mesmo tempo que ciclicamente Israel lança grandes operações militares que causam inúmeras vítimas, que margem de esperança pode restar que justifique um diálogo construtivo?

Por outro lado, um crime não justifica outro. Pela sua própria fortaleza e preparação, Israel estaria em condições de enfrentar o perigo terrorista sem ter que recorrer a ofensivas de guerra em larga escala, como aquela a que temos vindo a assistir, provocando milhares de vítimas inocentes.

Ao proceder deste modo, indiferente ao custo humano que provoca, Tel Aviv dá argumentos aos que a acusam de se orientar por um desejo de punição coletiva, convicção que as imagens de israelitas assistindo e aplaudindo de longe aos bombardeios vêm reforçar.

Desde o assassinato de Itzak Rabin, em 1995, a classe política de Israel parece aliás apostar, no seu conjunto e sem que nenhuma voz de relevo se oponha, numa solução militar do conflito, criando condições de tal modo insuportáveis para os palestinos que os obriguem ou a partir ou a submeter-se sem condições.

O governo judaico enfrenta assim compreensíveis acusações de massacre e arrisca-se também a desperdiçar o justo capital de simpatia universal que o Holocausto criou em torno da nação judaica, despertando os velhos demônios do antissemitismo.

A tal ponto, que alguns observadores vieram já alertar para o fato de que a radicalização de extrema direita em Israel coloca a todos os judeus – como alguns estão aliás a fazer, honra lhes seja feita – o dever de se posicionarem.

Como dizia Sophia de Mello Breyner, num poema que ajudou a formar a minha geração nos ideais da decência humana e cívica, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”.

Não sei mais qual é hoje exatamente a situação em Gaza. O que sei é que sem esperança de um futuro decente para os palestinos, em igualdade de condições com os judeus, não haverá diálogo, não haverá paz.
(DO SITE PORTUGAL DIGITAL)

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