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dez 07 2014

VOCÊ NÃO VAI VER O FILME IRMÃ DULCE? PELO MENOS LEIA ESTE TEXTO

RENATO RIELLA

O filme Irmã Dulce daqui a pouco sai do ar. O espectador fica transformado, com outra visão do mundo. Faço aqui mais um depoimento sobre ela, depois de apurar os fatos com minha família, em Salvador.

Lembro que, muito pequeno, eu via as pessoas falarem da freirinha como corajosa. Ela salvou do incêndio diversas pessoas, num ônibus que pegou fogo perto do convento do bairro de Roma. Isso aconteceu na década de 50 e é bem mostrado no filme.

Uns e outros contavam que as pessoas ficaram presas no ônibus, que bateu num bonde. Quando as chamas se espalharam, Irmã Dulce liderou as irmãs numa ação inusitada. Com tijolos, elas quebravam os vidros do veículo e puxavam as pessoas, sob grande risco.

 

IRMÃ DULCE ASSALTAVA OS ARMAZÉNS

Na década de 60, meu pai tinha um grande armazém atacadista na Cidade Baixa de Salvador. Irmã Dulce aparecia de repente, numa Kombi semelhante à mostrada no filme. Vinha sempre acompanhada de dois típicos negões baianos.

Os três entravam escondidos no armazém e saíam com cargas pesadas. Sacos de feijão ou de farinha. Ela tinha preferência pelas caixas de leite Ninho, com 24 latas. Era um verdadeiro assalto.

Uma vez, vi meu pai protestar, dizendo forte: “Irmã, assim você vai me quebrar”. Já se esgueirando, de saída, ela gritou de longe: “Deus vai lhe dar em dobro”.

Na verdade, Deus não devolveu em dinheiro, mas certamente multiplicou a felicidade do velho Agenor Riella, que morreu aos 86 anos dizendo-se muito, muito, muito feliz.

A freirinha de quase 1m40 continuou assim, saqueando armazéns, para alimentar seus pobres. Enfrentava a ira dos comerciantes, que até escondiam as mercadorias mais valiosas. Eles não podiam reagir, porque era a famosa Irmã Dulce, que superou governos, desafiou a poderosa Igreja Católica e montou um grande centro de atendimento para miseráveis.

 

O ENCONTRO DA FREIRA COM CECÍLIA RIELLA

Já na década de 70, numa dessas investidas clandestinas, Irmã Dulce viu no armazém a minha mãe, Cecília. Ela estava muito bonita (era 12 anos mais nova do que meu pai – morreu num 7 de dezembro, o que me fez escrever hoje esta história).

A incrível freira interrompeu a fuga com os dois negões. Voltou-se com firmeza. Chegando perto, perguntou a meu pai: “Seu Agenor, quem é esta moça bonita?” Sem dar intimidade, meio durão, meu pai respondeu: “Esta é Cecília, minha mulher, mãe dos meus quatro filhos”.

Ignorando a presença do dono do armazém, que a Irmã havia enfrentado durante anos, chegou-se mais, pegou as mãos da jovem mãe e falou: “Cecília, você está convidada para conhecer meu hospital. Faço questão de lhe mostrar pessoalmente tudo o que fazemos pelos pobres”.

Agenor foi obrigado a visitar o Hospital Santo Antônio, no bairro de Roma, em Salvador. Irmã Dulce conduziu Cecília Riella pela mão, como se leva uma criança. Saíram as duas de ala em ala, vendo a miséria muito bem abrigada, graças às “doações” às vezes compulsórias de Agenor e de outros baianos quase ricos.

Num devido momento, Cecília foi conduzida a um lugar mais reservado. Irmã Dulce mostrou-lhe uma grande cadeira de encosto e explicou: “É aqui que eu durmo um pouquinho de noite” – e riu baixinho, sacudindo a roupa branca e o manto, sempre impecáveis.

A freira enfrentou grave deficiência pulmonar durante mais de 40 anos – e sobrevivia por milagre (morreu com 77 anos). Contou que quase não comia. Se alimentava de pequenas porções (biscoitos, café com leite). Dava rápidas cochiladas no cadeirão, pois sufocava se deitasse em uma cama.

Como quase não dormia, passava as noites visitando os internos, a quem proporcionava carinho físico: longos abraços, apertos de mão e palavras santas. Muitos morreram abraçados com ela e reconfortados (o filme mostra isso).

 

O ACORDO DO ARMAZÉM COM A IRMÃ

Na visita ao Hospital, o pragmático Agenor Riella propôs um pacto, para que Irmã Dulce deixasse de assaltar seu armazém.

Negociaram de “homem pra homem”. Ela escolheu um item de extrema necessidade, de valor razoável, que meu pai passou a lhe doar constantemente, algumas vezes levando pessoalmente: uma lata de dez quilos de manteiga Constelação, a mais cara da época.

Sem que meu pai soubesse, minha mãe passou a dar ajudas variadas, às vezes pedindo doações a outras pessoas.

É uma história real, não mostrada no filme. Ajuda a entender melhor a pessoa santa que só podia ter surgido na sagrada Bahia de todos os santos e de todos os orixás.

Quem não assistir o filme merece pena. Perderá a chance de ser melhor nesta vida.

Irmã Dulce nos ajuda a entender porque o mundo sobrevive diante de tantos desequilíbrios. Ela foi uma intervenção divina na minha Bahia. Hoje, suas obras fazem mais de quatro milhões de atendimentos por ano.

Nunca falta vaga num hospital de Irmã Dulce!

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