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jun 19 2016

ARTIGO INTERNACIONAL: A HOMOFOBIA EM PORTUGAL

FRANCISCO SEIXAS DA COSTA

Acho saudável o sobressalto suscitado pelo atentado terrorista que teve como alvo uma discoteca frequentada por homossexuais nos Estados Unidos.

Embora pense que há outras dimensões dessa agressão que se devem considerar a nível idêntico da óbvia homofobia subjacente ao ato, creio importante que esse fator específico seja sublinhado, entendendo como natural que o acontecimento mobilize uma atenção particular para o tema. Porque ele é, cada vez mais, socialmente importante.

Com a maior sinceridade, penso que só poderemos considerar-nos, em Portugal, um país plenamente livre quando nos libertarmos, por completo, dos preconceitos residuais que o tema da homofobia ainda suscita.

Faço parte de uma geração que foi aculturada de uma forma muito peculiar quanto ao tema da homossexualidade.

Não obstante, desde muito novo, ter convivido sem problemas com pessoas que deixaram entender publicamente essa sua opção sexual, não tenho o menor pejo em admitir que a aceitação “compreensiva” e formal dessa realidade ia estranhamente de par com o regular uso de uma linguagem jocosa e menorizante sobre o fenómeno.

Ironias e graçolas, tendo como alvo os não heterossexuais, faziam parte de um discurso machista que eu próprio utilizei até muito tarde e com que, não raramente, me cruzo ainda em alguns circuitos sociais, onde o fator etário não é despiciendo.

Na cidade de província onde vivi até entrar para a universidade, a cultura dominante estava eivada de um ambiente profundamente discriminatório.

Isolava e ridicularizava socialmente os homossexuais, que eram apontados a dedo pelas ruas, mesmo se tal era muitas vezes atenuado por uma espécie de tolerância sobranceira, mas que não escondia a ideia de fundo de que, no final de contas, se tratava de uma “anormalidade”, mais ou menos admitida por uma espécie de liberalidade modernaça.

Olhando retrospetivamente para esses tempos, posso imaginar a violência que esse ambiente social constrangente provocava, não apenas nessas pessoas, mas igualmente em quantos imagino que foram forçados a retrair a assunção pública da sua opção sexual.

Devo dizer que me dou conta de que esse ambiente paternalista está muito longe de dissipado nos dias de hoje e de que terão de passar ainda bastantes anos até que o respeito pleno pela liberdade de assunção de uma opção diferente da heterossexualidade seja comumente aceite de forma natural.

Talvez o fato da cada vez mais famílias serem confrontadas com o “outing” de alguns dos seus membros possa ajudar a acelerar esta evolução.

Como cidadão, tenho a sensação de que este tema deu passos de gigante, nos últimos anos, em Portugal. E, devo dizer, sinto-me orgulhoso por fazer parte de um país que foi capaz, num prazo de tempo relativamente curto, de dar mostras de assumir uma postura de grande abertura nessa dimensão essencial da luta pela igualdade entre as pessoas.

Há um teste que costumo utilizar para perceber se a aceitação da homossexualidade por parte de pessoas com quem convivo é real ou é apenas o resultado de um esforço intelectual para seguir o “politicamente correto”: a questão da adoção de crianças por casais homossexuais.

Independentemente de poder compreender quantos, por razões religiosas e até de uma certa leitura sobre a integração societal, achem que o crescimento de uma criança de deve fazer sob um quadro parental com um casal no modelo tradicional, estou profundamente convicto de que a grande objeção à adoção de crianças por homossexuais tem, “on the back of the mind”, a ideia da “anormalidade” dessa opção.

No fundo, há uma não assumida convicção de que se pode estar a expor as crianças a possíveis atos de pedofilia.

Posso estar enganado neste meu raciocínio, mas é o que sinceramente penso.

FRANCISCO SEIXAS FOI EMBAIXADOR DE PORTUGAL NO BRASIL

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