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jun 14 2015

O REI DO PAU-DE-SEBO

RENATO RIELLA

Pau-de-sebo é a brincadeira mais nojenta da criançada brasileira. Mas representa a principal memória que tenho do meu irmão, Humberto Riella, que completa hoje 65 anos.

Quem vê Humberto, importante executivo na Bahia, não acredita que ele foi o “rei do pau-de-sebo”, em áreas de predominância negra, em Salvador (a cidade ainda hoje tem bolsões).

Nós dois, antes dos 10 anos de idade, já curtíamos uma liberdade anormal. Minha mãe, Cecília, era muito nova e nos deixava absolutamente soltos, sob a proteção dos Anjos-da-Guarda.

Vivíamos de cabeça quebrada, cortes sem ponto, fraturas que se curavam sozinhas, bicho-de-pé tirado com alfinete não-esterilizado, sem vacinação de nada. Se virem!

Não existia protetor solar nem boné – e sapato, só na escola.

Morávamos na Cidade Baixa de Salvador, numa rua habitada por famílias tradicionais, perto do armazém atacadista do meu pai. Tínhamos nível social elevado, com carro, escola particular, bicicleta,  festa de aniversário, primeira comunhão, etc.

Mas Humberto (um ano mais novo) foi o menino mais danado que já vi! E me arrastava para o mundo. A gente se apresentava com um péssimo visual: cabeça raspada nos lados, com ridícula franjinha. Andávamos sem camisa, short costurado pela própria mãe.

A franja do Humberto fazia dele um sósia do personagem de quadrinhos chamado Pinduca. O pessoal da Cidade Baixa conhecia o meu irmão-parceiro por esse apelido.

 

NAQUELA ÉPOCA NÃO HAVIA BALA PERDIDA

Num dia de festa (São João ou Aleluia), corremos para um bairro pobre chamado Uruguai, perto da favela de Alagados. Apesar da falta de grana do local, era um ambiente feliz. Não havia pedofilia, nem bala perdida.

Chegando no Uruguai, muitas pessoas estavam curtindo um pau-de-sebo comunitário. Trata-se de uma estaca de madeira, com cerca de 3m de altura e 15cm de largura. Na ponta superior, eles pregam uma tábua, onde penduram prendas diversas para crianças: frutas, chocolates, bolas de gude, etc.

E por que pau-de-sebo? Ora, os malucos buscam sebo nos açougues e passam grossas camadas dessa gordura animal, meio amarelada, na madeira. De cima/abaixo do pau-de-sebo vê-se aquela massa oleosa. Eca! Quando o sebo vai saindo, os organizadores espalham nova camada.

Quem ganha os prêmios é aquele que consegue escalar o topo gorduroso de três metros de altura. Tarefa humanamente impossível!

Diversos meninos tentaram. Os garotos do Uruguai subiam um metro e caíam, sob grande gozação. Todos de calção, sem camisa nem sapato, negros ou mulatos. Ficavam imundos!

 

O FAMOSO PINDUCA ENTRA EM AÇÃO

Humberto, lourinho, riquinho, muito franzino, resolveu desafiar o pau-de-sebo. Afinal, ele era o famoso Pinduca, que jogava bola bem pra caramba, bom na pedrada, ágil e malandro de origem. Plenamente integrado com todas as faixas sociais e étnicas, me levava sempre de carona nas estripulias.

Em duas tentativas no pau-de-sebo, Pinduca negou fogo. Então, aproximou-se um mulato mais velho para salvar sua fama. Esfregou com cuidado uma areia marrom no peito, na barriga, nos braços, nas pernas e até na bochecha, nos pontos onde o sebo havia grudado.

Se minha mãe visse Humberto naquele estado arenoso tinha um troço. Cadê o Juizado de Menores?

Pinduca à milanesa se aproximou do pau-de-sebo. Uma figura horrível! A torcida tremeu. Será que consegue? Ele foi indo, foi indo e chegou no alto.  Parou algumas vezes para descansar, mas venceu!

Pendurou-se de forma alucinada na tabela do pau-de-sebo, a três metros de altura, num risco que deixaria qualquer adulto arrepiado.

Quando despencou pelo pau, num escorregão seboso, foi carregado pela plateia como Pelé na Copa do Mundo.

Entre as prendas, só lembro de um abacaxi balançando lá em cima.  Muita coisa foi dividida com a garotada de forma caótica. Devemos ter levado algum prêmio pra casa, mas o principal foi vencer.

Não sei como fomos recebidos de volta por minha mãe, que jogou no lixo o calção do Humberto. Será que tomamos 12 bolos com a escova de sapato? Bem merecido!

Dito tudo isso, registro que o famoso Pinduca está fazendo 65 anos. Pôxa, meu Deus, há pessoas que não deviam envelhecer nunca. Nunca!!!

 

O ÍDOLO RECONHECIDO NA FONTE NOVA

Anos depois, a gente já estava morando num bairro classe A (Pituba, a Copacabana de Salvador). Um dia, meu pai nos levou, adolescentes, para ver o Bahia (Baêeeea) jogar no Estádio da Fonte Nova.

De repente, passou uma galera fazendo algazarra (como são barulhentos). O pessoal parou, olhou pra nós, e começou a batucar em coro: “Olha o Pinduca! Olha o Pinduca! Olha o Pinduca”.

Meu pai, Agenor, ficou puto da vida.

Pensei: quem foi Pinduca será sempre majestade.

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