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dez 21 2014

RESILIÊNCIA? QUE DIABO É ISSO?

RENATO RIELLA

Resiliência é uma palavra em destaque num anúncio de rádio. Que diabo é isso, meu Deus! Vivo da fala e da escrita há 65 anos e nunca li nem usei essa expressão. De repente…

Tudo o que aprendi de útil na vida foi há quase 50 anos, com meu primeiro chefe de reportagem, o baiano Lins, em Salvador. Ele me ensinou que a gente precisa usar um vocabulário com apenas 500 palavras (além de termos técnicos ou especializados) para se comunicar bem.

Lembro que, na época, os jornalistas evitavam fortemente repetir palavras num texto. Assim, quando escreviam “hospital”, num parágrafo seguinte usavam o sinônimo “nosocômio”.

Lins corrigia os textos de lápis e me falava: “Repita hospital. Nunca use nosocômio”.

A visão dele era que os textos deveriam exprimir sempre a linguagem falada, com 500 palavras como base.

Resiliência para mim é como narguilé: nunca usei antes e não pretendo usar agora.

As palavras têm a medida certa e não foram feitas para humilhar ninguém.

Muitas vezes já fui autoridade de primeiro escalão. Trabalhei sempre bem esporte. Um dia, num auditório com 50 pessoas, um técnico jovem, bem esnobe, apresentava um projeto.

Paletó e gravatas impecáveis. Cabelo engomado, Sapato de couro brilhante. De longe, pude perceber que usava perfume francês.

O rapaz sorboniano projetou textos numa tela. Num deles, destacou as qualidades do projeto, começando com “eficiência” e “eficácia” (nunca soube a diferença entre essas duas palavras!)

Ao final da palestra, como autoridade, me coube a primeira pergunta. Pedi que reprojetasse a tela com as “qualidades”. Apontando com o dedo, falei:

-Seu projeto é bem legal. Por mim, está aprovado. Apenas me responda uma pergunta. Se ele for eficiente sem ser eficaz, perde quanto na execução?

O auditório não sacou a pergunta. E ele respondeu: “Não perde nada!” Mais tarde, quando decifrou minha ironia, o carinha perfumado deve ter me xingado.

 

EPA! CHAMAR MULHER DE COMPANHEIRA?

O uso das palavras deve ser exato e apropriado. A propósito, me arrepio quando vejo o governador eleito Rodrigo Rollemberg chamando de forma insistente a mulher dele, Márcia, com quem tem filhos e é casado há mais de 30 anos, de “companheira”.

A imprensa escrita, falada e televisionado, se tivesse maior sensibilidade, já deveria ter feito matéria bem humorado com os casais brasilienses para perguntar como se chamam e se aceitam esta moda de “companheira”.

Meu eterno chefe de reportagem, Lins, já dizia: “Casal é marido e mulher. Nunca esposa ou esposo, que é um tratamento esnobe, fora da linguagem”.

E companheiro dá um tom de algo passageiro, como um acompanhante eventual de viagem – no caso, uma viagem de mais de 30 anos.

A língua exprime o nosso ser. O nosso ser pode ser profundo, sensível e bonito, mantendo-se simples, corriqueiro, no tom das ruas. E não precisa ser banal por isso.

Para concluir: “Resiliente é a mãe”!

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