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out 30 2013

Por ser uma cidade sem dono, Brasília corre o risco de implodir

                              

WÍLON WANDER LOPES

Cinquenta e três anos depois de inaugurada, Brasília se vê num impasse. Por um equívoco que se mostra desastroso, construída para ser capital federal, virou também capital distrital. E esta dupla condição encheu suas ruas de gente e de carros que, buscando resolver problemas distritais na capital federal, se deslocam das cidades-satélites para o Plano Piloto, inviabilizando a Brasília que Lúcio Costa projetou.

Juscelino deve estar se revirando no túmulo: Brasília ficou mais distrital do que federal.

Além disso, construtoras e empreiteiras que veem a capital federal como uma arca do tesouro, em função do déficit habitacional, continuam a buscar áreas verdes para nelas construir apartamentos.  E, aí, abaixo as áreas verdes!

E haja espigões, como os que deturparam o plano original de Águas Claras. Até quando haverá áreas verdes no DF para saciar a fome das construtoras, a maioria de fora? Foge à lógica, não é sustentável este “progresso” que está deixando nossa Brasília fora dos eixos.

E isso vem gerando problemas de toda ordem para a Brasília federal, para o DF e para o Entorno. Mas, afinal, por que isso acontece? E quem é, ou quem são os responsáveis por tal desastre? Será que falta planejamento em uma cidade que foi tão planejada?

E saltam outras perguntas: o que é Brasília? Brasília é o Plano Piloto? E a tal “área tombada”? Brasília é o Distrito Federal? O que é o Distrito Federal? E o tal do Entorno? Tantas perguntas estão contidas em uma – o que é a Brasília toda que nós vivemos?

Tal pergunta não se resume à questão geográfica nem à histórica. Não haverá solução enquanto não houver uma visão holística do problema. E como temos defendido no Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, dirigido pelo braço direito de JK, o admirável Affonso Heliodoro, a questão é eminentemente política.

Por isso, antes de tudo, é preciso descobrir, primeiro, quem manda mesmo em Brasília. Já foi o Presidente da República. Houve um tempo em que foram as empreiteiras. Já foi a ameaça do dossiê, até os vídeos… E hoje, quem manda?

E o que os nossos bons políticos têm feito? Há uma PEC que pretendia colocar uma redoma sobre o Plano Piloto, com a criação do Estado do Planalto; outra, que aumentaria o território do Distrito Federal, agregando cidades de Goiás; mais recentemente, o deputado Policarpo, também presidente do PT-DF, deu entrada em uma PEC para resolver (?) o problema da confusão entre Brasília e o DF – infelizmente, com solução que gera polêmica: tratar Brasília como se ela fosse o Distrito Federal, propondo ser uma só as duas áreas.

Enquanto Brasília – e o Distrito Federal, sempre a ela vinculado, mas sempre em segundo plano – continua sem dono, aumentam os problemas e diminui a qualidade de vida que a Brasília pioneira ostentava.

Os governadores prometem, até tentam, mas não conseguem melhorar os serviços públicos de transporte público, saúde, segurança e educação. E há dinheiro extra, federal, para custear tais serviços, pagos por todos os brasileiros.

Já se fala até em construir outra Brasília para desafogar nossa Brasília. Mas, e o DF, como ficará sem Brasília? Volta para o Goiás? Como já disse um ex-governador do DF, “o sonho de JK não pode se transformar em pesadelo!”

Já é tarde, mas ainda é tempo. Primeiro, é preciso conter quem está destruindo a Brasília sonhada. Depois, a Brasília toda que vivemos deve ser repensada, no objetivo de se conhecer melhor o que está acontecendo e cuidar de seu futuro e, até diria, sobrevivência, como capital federal. O dono da cidade voltaria a ser o cidadão, que elegeria representantes políticos que entendam e amem Brasília, como pregou Lúcio Costa.

Se não – a exemplo do que está acontecendo, com prédios pequenos do Setor Hoteleiro dando lugar a prédios enormes – , Brasília corre o risco de implodir…

É isso o que queremos que aconteça com a cidade que construímos?

 

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